Fadas com coleiras de picos

Não vivo num conto de fadas, mas hoje fiz-me passar por uma.
Vestia uns belos folhos verdes e cantarolava pragas. Mas, o melhor de tudo, é que usava uma coleira com picos! ô.ô

E fora esse palco maravilhoso, com um enredo engraçado, não será que vivemos todos numa peça de teatro constante? Uns mais numa de dramáticos, outros numa de comédia e outros como meros espectadores. E depois há, na nossa historinha, monstros que nos atormentam e fadinhas que nos ajudam.
Mas também podemos encontrar monstros a fazerem-se passar por fadas! Como eu...

E acabamos sempre desmascarados - damos conta disso no fim, quando pensavamos que estava tudo a ir bem e nos ríamos de contentes. Sim, esta experiência foi engraçada por isso mesmo... mas a vida não é uma experiência. Só há um abrir e fechar de cortinas, muitos actos pelos quais somos responsáveis e uma luta por um lugar no estrelato: podes brilhar ou sustentar o brilho de outros.

Eu quero brilhar. Sem mais disfarçes, mas é disso que o teatro é feito. E eu vejo a vida como um palco recheado de diversas personalidades (de persona = máscara) temos o pobre "vilão" que toda a gente repugna e a "princesa" que seduz as vítimas até à corte, por exemplo. O mais engraçado é que a culpa cai sempre no vilão... somos todos atacados pelas nossas defesas.

Atacados porque gostamos de impor respeito nos outros, pela nossa maneira de estar, de vestir, de pensar. Atacados por sermos diferentes. Por sermos indivúduos. E o nosso sistema de actuar não quer isso, por ser perigoso. Porque quem descobre o seu "eu" não faz mais parte da psicologia das massas; não será supersticioso e não poderá ser explorado e guiado como gado, não poderá ser ordenado e comandado.
Então e se eu quizer ser doce, mas proteger-me dos gulosos?



Eu quero ser eu.
Fada com coleira de picos.

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